Conto 1

- 25.
Vargas arrastou os pés pela rua limpa e iluminada. Estava em uma grande rua comercial, com suas vitrines cintilantes brilhando freneticamente – mesmo sendo noite parecia dia, pois o sol havia sido quebrado e suas partes ainda com vida derramavam sua luz para fora das lojas.
-26.
Ele ergueu o punho para a camera de vigilância. Vargas vestia um terno preto desalinhado, sua gravata estava torta e a camisa branca estava parcialmente fora da calça. Seus olhos injetados eram raiva e desespero, a essa hora a tristeza já o havia abandonado.

Após caminhar por alguns quarteirões e perder-se em números sem fim, sentou-se no chão. Vargas teve poucos momentos de paz e felicidade em sua vida, poucos momentos de sossego que pode desfrutar e desta vez não foi diferente.
Dois homens se aproximaram dele. Eles vestiam coletes a prova de bala e o uniforme da polícia metropolitana, a camisa branca e calça preta, e uma jaqueta pesada por cima. Na cintura carregavam um taser e uma pistola atordoadora.
- É ele, não? – perguntou um dos homens. Ele era alto e usava óculos escuro.
O outro homem agachou-se e retirou um pequeno aparelho de dentro da blusa. Pôs o dedão do moribundo no aparelho. Uma voz digital soou.
- Identidade confirmada. Sr. Vargas Amarante, 48 anos. Procurado por homicídio. Portador do Número de Identificação 92.360.455-50, classe B.

Uma luz forte trouxe Vargas de seus pesadelos para uma realidade ainda mais cruel. Estava ofuscado e podia sentir seu corpo preso contra uma cadeira metálica. Estava algemado.
- Finalmente acordou, sr. Vargas.
A luz não diminuiu e ele pode perceber o som dos pequenos aparelhos de sondagem rodeando sua cabeça. Estavam escavando sua mente!
- Me deixem em paz – grunhuiu ele quase sem forças.
Uma silhueta se formou na frente do projetor de luz – uma forma espectral e sem feições.
- Meu senhor, estamos fazendo isso para o seu bem. O senhor foi flagrado matando sua própria esposa. Estamos procurando irregularidades em seu cérebro para alegar insanidade temporária. – Houve uma pequena pausa e um suspiro.
- A não ser, é claro, que o senhor prefira ser condenado a morte.

Vargas foi jogado numa cela pequena de piso duro e frio. Encolheu-se num canto, com a cabeça entre os joelhos, pois queria esconder o rosto das cameras de vigilância. Oculto nas sombras ele se sentia mais seguro, pois aqui os olhos mecânicos não o viam, aqui sua esposa não o espiaria.

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Trecho 2

Myrkur ficou ouvindo por um bom tempo os anciões da vila contarem suas histórias. Ouvia tudo atentamente e vez ou outra tomava nota. De modo geral eram histórias que já conhecia, algumas delas com variações interessantes. Outras, no entanto, eram novas, pois consistiam em relatos da vida dos próprios moradores. Não que fossem totalmente diferentes da vida dos outros camponeses do reino, mas estas ao menos possuíam o frescor típico das histórias contadas por pescadores.

Perto da hora do almoço Myrkur afastou-se dos anciões e foi até um terreno plano ao lado das casas, onde as crianças brincavam. Enquanto andava suas vestes escuras balançavam suavemente, como se embalados por um vento suave. Ele possuía ar de sabedoria em seu rosto jovem, mas seus olhos continham uma expressão cansada e levemente triste. Sua pele morena era mais corada do que a dos camponeses, pois suas viagens ao longo de todo o continente muitas vezes o deixaram vulnerável ao sol. Era magro e elegante, mesmo vestindo simples vestes de viagem.

Sentou-se na grama próximo as crianças, estas não pareciam dar sinais de tê-lo notado pois continuaram com seu faz-de-conta sem alterações.

Passou a mão pelos cabelos escuros e deixou-se ficar sentado por mais alguns minutos. Seus olhos seguiam as crianças de um lado a outro sem rumo definido nessa manhã ensolarada, mas sua mente navegava por regiões mais escuras que, envolta em névoas, tornava-se indiscernível. Subitamente sentiu um toque suave em seu ombro direito, ao virar-se avistou um garotinho despenteado e magricela.

– O senhor é algum tipo de príncipe? – perguntou a criança com sua vozinha aguda.

– Não, de modo algum.

O garoto colocou-se diante de Myrkur. Teatralmente coçou o queixo com um olhar interrogativo.

– Algum tipo de nobre então?

– Também não…

– Ora, o senhor chegou três dias atrás em nossa vila. Todos lhe tratam bem, lhe demos comida e abrigo. Por quê faríamos isso se o senhor não fosse um príncipe ou um nobre?

– Como já lhe disse, não sou um nem outro. Talvez as pessoas daqui sejam gentis…

Com uma careta forçada o garoto negou essa possibilidade e pôs a mão direita em seu traseiro – provavelmente recordando alguma surra recente.

– Não acredita em mim?

– Veja bem senhor, não ajudamos qualquer vagabundo que para por aqui.

Dessa vez Myrkur não pode conter o riso e sua voz ecoou por toda a vila.

– De príncipe virei vagabundo?

– Não, meu bom senhor. Apenas disse que não damos ajuda à qualquer um.

– Talvez, eu não seja qualquer um.

O garoto manteve sua pose teatral, o queixo a apoiada contra a mão esquerda.

– Mas se não é nobre nem príncipe, o que torna o senhor mais importante do que um simples camponês?

– Você faz perguntas bastante perspicazes para uma criança.

Com uma cara zangada, que provocou risos em Myrkur, o garoto respondeu apressadamente.

– Logo não serei mais criança. No final da primavera farei dez anos e ajudarei meu pai no plantio.

– Imploro desculpas, meu jovem senhor. Devia ter imaginado que perguntas tão sábias só poderiam provir de um homem maduro. – Myrkur levantou-se e fez uma reverência exagerada.

Sorrindo um pouco contrariado e procurando algum indício de ironia, o menino aceitou as desculpas.

– Qual o seu nome rapaz?

– Siegfried e o senhor ainda não respondeu minha pergunta.

– Ouça meu jovem, eu não me julgo especial, tampouco mais importante do que qualquer um aqui.

– Se o senhor não é especial, por quê não está trabalhando como todos os outros adultos da vila?

– Mas meu caro Siegfried, eu estou trabalhando.

Desconfiado ergueu os olhos para Myrkur.

– Mentira – disse secamente.

– Jovem senhor, eu nunca minto.

O menino riu desajeitadamente, parecia ter pequenas convulsões.

– Os adultos estão sempre mentindo – enquanto falava cuspia saliva e quase mordeu a língua de tanto rir. Ainda soluçando continuou:

– Se é verdade que está trabalhando, fale, qual o seu trabalho?

– Não posso contar, mas se quiser digo meu nome.

Siegfried assentiu com a cabeça.

– Chamam-me Myrkur, meu caro senhor.

O garoto deu às costas para ele, como se aquilo que acabara de saber fosse totalmente desimportante. Com um grito estridente e um aceno desgovernado de mãos o menino chamou a tenção de seus amigos.

– Ele não é um príncipe!

Aos berros e com grande alvoroço todas as crianças saltaram sobre Myrkur.

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Trecho 1

Arudel era um jovem cheio de sonhos. Não eram sonhos muito grandes, tenho que admitir, mas também não eram pequenos objetivos. Ele era um rapaz simpático, educado e um pouco tímido. Adorava ouvir histórias de aventura e de contar suas próprias histórias aos amigos. Gostava também de jogos de raciocínio. Mas o que mais gostava era dos barcos. Ahhh os barcos!

Era esse o sonho de Arudel. Ser um grande navegador, ter sua própria tripulação, descobrir novas terras e vivenciar aventuras nunca antes imaginadas.

E Arudel já estava no caminho para realizar seu sonho. Sabia se orientar pelas estrelas, decorava facilmente rotas de navegação, desenhava bons mapas – aliás, possuía uma coleção interessante de mapas antigos – e o mais importante, ele não tinha medo de altura.

Arudel estudou bastante para ingressar na Escola de Navegação Imperial. Preparou-se durante meses para a prova e os testes de aptidão. Treinou nós, decorou nomes das partes dos barcos, repassou as leis sobre navegação. Não esqueceu de gravar em sua cabeça os nomes dos barcos e capitães famosos, dos inventores e magos importantes.

A Grande Prova foi mais fácil do que imaginava – talvez não precisasse ter estudado tanto – e, naturalmente, foi aprovado com méritos.

Ser inteligente era útil, mas não bastava apenas isso. Arudel tinha que ser ágil, ter bom equilíbrio e coordenação. Ser forte também tinha serventia, mas isso era algo que ele preferia ignorar.

Arudel estava super entusiasmado, suas aulas práticas de condução de barcos já haviam começado. A teoria ele já tinha, mas estava tendo um pouco de dificuldade com a prática da coisa – ou a coisa da prática, dependendo do humor dele. Guiar uma embarcação de toneladas de madeira e ferro a uns – 300, 500? – metros do chão não é uma tarefa simples. Mas ele persistia e continuava se esforçando, pois sabia que cedo ou tarde dominaria a arte da condução de barcos voadores.

Arudel! Arudel! Arudel! Arudel olha o esfregão! Guarda a espada! Limpa direitinho!

Ultimamente Arudel estava sendo muito requisitado. Seu nome iniciava cada frase e cada parágrafo pronunciado pelos outros pretensos navegadores e também pelos navegadores pretensos. Eram pedidos e ordens. Normalmente envolvendo tarefas necessárias mas desinteressantes – principalmente se você tem grandes sonhos para sua vida.

Arudel não tinha nada contra limpar o chão, inclusive achava isso realmente necessário. Mas não era isso o que queria. Não era com isso que sonhara. Não foi para isso que entrara na Escola de Navegação Imperial. Não tirou o melhor resultado na Grande Prova para isso. Mas lá estava ele, com o esfregão na mão e um balde ao lado.

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