Vargas arrastou os pés pela rua limpa e iluminada. Estava em uma grande rua comercial, com suas vitrines cintilantes brilhando freneticamente – mesmo sendo noite parecia dia, pois o sol havia sido quebrado e suas partes ainda com vida derramavam sua luz para fora das lojas.
-26.
Ele ergueu o punho para a camera de vigilância. Vargas vestia um terno preto desalinhado, sua gravata estava torta e a camisa branca estava parcialmente fora da calça. Seus olhos injetados eram raiva e desespero, a essa hora a tristeza já o havia abandonado.
Após caminhar por alguns quarteirões e perder-se em números sem fim, sentou-se no chão. Vargas teve poucos momentos de paz e felicidade em sua vida, poucos momentos de sossego que pode desfrutar e desta vez não foi diferente.
Dois homens se aproximaram dele. Eles vestiam coletes a prova de bala e o uniforme da polícia metropolitana, a camisa branca e calça preta, e uma jaqueta pesada por cima. Na cintura carregavam um taser e uma pistola atordoadora.
- É ele, não? – perguntou um dos homens. Ele era alto e usava óculos escuro.
O outro homem agachou-se e retirou um pequeno aparelho de dentro da blusa. Pôs o dedão do moribundo no aparelho. Uma voz digital soou.
- Identidade confirmada. Sr. Vargas Amarante, 48 anos. Procurado por homicídio. Portador do Número de Identificação 92.360.455-50, classe B.
Uma luz forte trouxe Vargas de seus pesadelos para uma realidade ainda mais cruel. Estava ofuscado e podia sentir seu corpo preso contra uma cadeira metálica. Estava algemado.
- Finalmente acordou, sr. Vargas.
A luz não diminuiu e ele pode perceber o som dos pequenos aparelhos de sondagem rodeando sua cabeça. Estavam escavando sua mente!
- Me deixem em paz – grunhuiu ele quase sem forças.
Uma silhueta se formou na frente do projetor de luz – uma forma espectral e sem feições.
- Meu senhor, estamos fazendo isso para o seu bem. O senhor foi flagrado matando sua própria esposa. Estamos procurando irregularidades em seu cérebro para alegar insanidade temporária. – Houve uma pequena pausa e um suspiro.
- A não ser, é claro, que o senhor prefira ser condenado a morte.
Vargas foi jogado numa cela pequena de piso duro e frio. Encolheu-se num canto, com a cabeça entre os joelhos, pois queria esconder o rosto das cameras de vigilância. Oculto nas sombras ele se sentia mais seguro, pois aqui os olhos mecânicos não o viam, aqui sua esposa não o espiaria.